A identidade cristã nos dias atuais

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

27. O "PAI NOSSO" COMO ADORAÇÃO

“Pai nosso, que estás nos céus! Santificado seja o teu nome.  Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu
(Mateus 6.9-10).

A Oração do Pai Nosso foi o modelo deixado aos seus discípulos por Jesus no Sermão do Monte. Em essência, essa oração cobre todas as necessidades humanas, o que é extraordinário e admirável, mas isso não exclui a possibilidade de orarmos de outras formas, pois o próprio Senhor Jesus recomendou que não usássemos de vãs repetições. Na Oração do Pai Nosso, encontramos uma espécie de estrutura, um esboço para as demais orações. Se fizermos uma análise da Oração Sacerdotal, outra oração feita por Jesus e registrada nos Evangelhos, descobriremos que ela pode ser reduzida aos princípios que constam na oração do Pai Nosso. A economia de palavras, a maneira de resumir aquilo que realmente importa, reduzindo tudo a algumas poucas sentenças, é algo que verdadeiramente proclama o fato de que quem ensinou esta oração não foi outro senão o próprio Filho de Deus. Além de ser modelo, a oração visa não somente aos discípulos originais, mas a todos os crentes, de todos os lugares, em todos os tempos.
Certas pessoas sentem-se perturbadas diante dessa oração, porque ela não termina dizendo "em nome de Jesus". É bom lembrar que Jesus estava simplesmente lançando os princípios fundamentais que deveriam governar constantemente o relacionamento entre o homem e Deus, não se preocupando com detalhes. Mais tarde, ele orientou os discípulos a orarem em seu nome.
Ao orar, como somos apenas seres humanos premidos pela urgência de nossa situação, pelas preocupações, pela ansiedade, pela angústia mental, pela tristeza no coração e por diversas aflições, ficamos tão pressionados por essas coisas que, à semelhança de crianças pequenas, começamos a falar imediatamente, sem pensar. Conforme registra o livro de Eclesiastes, é vital que, ao orarmos a Deus, lembremos o fato de que Deus está nos céus e nós na terra: "Pai nosso, que estás nos céus..."
Após a invocação inicial, aparecem as petições: são seis ou sete pedidos, segundo debatem as autoridades; os três primeiros estão na forma de adoração e dizem respeito a Deus e à sua glória; os demais pertencem a nós mesmos, na forma de petição pessoal. Isso nos mostra que, antes de pedirmos por nós mesmos, precisamos nos preocupar com o Reino de Deus. "Santificado seja o teu nome" é a primeira petição da oração. Os judeus reconheciam a grandeza, a majestade e a santidade de Deus, e por isso evitavam proferir "Yahweh", nome que significa tudo quanto está envolvido e que nos foi revelado na pessoa de Deus. Ele havia sido revelado na história aos filhos de Israel sob diversos nomes e a petição refere-se a todos eles. A frase reflete um desejo profundo e ardente para que a honra e a glória de Deus sejam conhecidas pelo mundo todo. Hoje, é alarmante ver a maneira como todos tendem a usar de modo negligente o nome do Senhor. Proclamem a grandeza do Senhor comigo; juntos exaltemos o seu nome”, convida o salmista. "Venha o teu reino" é a segunda petição. Após pedir que o nome de Deus seja santificado entre os homens, queremos que o seu Reino venha, para que a primeira petição se realize mais completamente. O Reino já veio, com o ministério de Jesus no mundo; está presente com a atuação da igreja; mas ainda há de chegar para estabelecer-se completamente com a volta de Cristo. "Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu" é a terceira petição, consequência e conclusão lógica da segunda petição, que é conclusão lógica da primeira.
Nome de Deus santificado, seu Reino pedido, sua vontade cumprida: são as três petições iniciais, na forma de adoração, que devem estar presentes ao orarmos a Deus, antes de entrarmos na petição pessoal. Que passemos a aplicar estes princípios em todas as nossas orações!   

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

26. ORAÇÃO

“E quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas” (Mateus 6.5a).

Esmola, oração e jejum foram três aspectos da vida religiosa, ou da piedade do crente, ilustrados por Jesus no Sermão do Monte: o relacionamento com o próximo, com Deus e consigo mesmo estão aí ilustrados. João Batista e Jesus ensinaram seus seguidores a orar, certamente porque os discípulos viam seus mestres, principalmente Jesus, em constantes e longas orações a Deus.
O pecado é algo que nos acompanha por todo o caminho que percorremos, chegando até mesmo à presença de Deus. Ele não teve começo nesta terra, pois, antes mesmo de o homem haver caído, já havia acontecido uma outra queda. Satanás havia sido um ser angelical perfeito e resplandecente, que habitava nos lugares celestiais; todavia, Lúcifer caiu em pecado, antes que o homem caísse. O pecado é um estado do coração, consistindo em uma tendência para a auto adoração e a auto adulação. Às vezes podemos achar que adoramos a Deus e, na realidade, estamos adorando a nós mesmos. Embora a oração seja a mais elevada realização do ser humano, sua mais nobre atitude, mesmo aí o pecado pode estar presente.
Existe a maneira errada e a maneira certa de orar. A maneira errada é, inicialmente, a pessoa que ora estar voltada para dentro de si mesma, concentrando sua atenção em quem está orando e não naquele para quem a oração está sendo dirigida. Assim agiam os fariseus nos dias de Jesus. Outro erro na oração é o uso de vãs repetições, como se a eficácia da oração dependesse de quão longa ela é. "Belas orações" ou “orações poderosas" muitas vezes são mencionadas em nosso meio, como prova de grande devoção e comunhão com Deus de quem ora. Não devemos julgar, porque podemos ver apenas a aparência, mas Deus olha o coração. Entre os muçulmanos, existe a tendência de se desenvolver uma marca escura na testa ao colocar o devoto a cabeça no chão para orar, conforme eles fazem várias vezes por dia. Existem aqueles que raspam a pele da testa contra o chão para que a marca fique maior, pois quanto maior a marca, maior será o reconhecimento pelos outros da devoção do homem. No entanto, ao orar, o ser inteiro daquele que ora deve fixar sua atenção em Deus, concentrando nele todo o interesse e esquecendo-se de qualquer outra coisa. Quando ouvimos falar de "vãs repetições", lembramo-nos logo do catolicismo e suas rezas, mas devemos também atentar para nós, pois também nós podemos estar nos repetindo em orações costumeiras.
A maneira certa de orar é entendermos que estamos nos aproximando de Deus quando assim fazemos. A entrada no quarto, a porta fechada e a oração ao Pai em segredo excluem da mente todo o meu campo de interesses. Isso não elimina a oração em público, na igreja ou em qualquer outro lugar, mas leva-nos a excluir de nossa mente as pessoas, e a nós mesmos, para entrarmos em comunhão com Deus. Percebemos então que estamos na presença de Deus, que é tão elevado, mas também nosso Pai celestial. Portanto, devemos orar como um filho que se aproxima de seu pai para conversar com ele. Ele tem conhecimento de cada uma de nossas necessidades, antes mesmo que abramos a boca. Ele tem uma perspectiva, um plano e um programa a nosso respeito e que nos envolve. Ele é capaz de fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos.
Deus é poderoso e capaz de fazer por nós infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme disse Paulo. Creiamos nesta verdade e então cheguemos a ele em oração, impelidos por pura confiança.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

25. OBRAS DE JUSTIÇA

"Tenham o cuidado de não praticar suas "obras de justiça" diante dos outros para serem vistos por eles. Se fizerem isto, vocês não terão nenhuma recompensa do Pai celestial" (Mateus 6.1).

Uma nova sessão se inicia em Mateus capítulo 6. Após as bem-aventuranças, a reação do cristão diante do mundo (e do mundo diante dele), bem como a relação entre o cristão e a lei de Deus, encontramos agora o quadro de um cristão que vive sua vida neste mundo na presença de Deus, em ativa submissão e completa dependência a ele. É o quadro dos filhos de Deus na relação com seu Pai Celeste, enquanto avançam na peregrinação chamada vida. Precisamos considerar dois aspectos principais neste capítulo: o primeiro, dos versos 1 a 18, cobre nossa vida religiosa, a nutrição da alma, nossa piedade, nossa adoração, enfim, tudo o que diz respeito ao nosso relacionamento com Deus; o segundo, do verso 19 até o fim do capítulo, refere-se ao cristão em sua relação para com a vida em geral, não apenas religiosa, mas como alguém sujeito a circunstâncias, lidando com as coisas do mundo. A vida do cristão neste mundo é entremeada de problemas; o capítulo em estudo sonda-nos e examina-nos, segurando um espelho diante nós, não nos permitindo escapar das verdades ali referidas. O autoexame, o conhecer-se a si mesmo, é a forma de conhecimento mais dolorosa que uma pessoa pode ter.
O primeiro versículo acima citado serve de introdução à mensagem contida no trecho até o verso 18. Nele Jesus anuncia o princípio geral que governa a vida religiosa do crente, que pode ser entendida em três segmentos: a maneira como dou esmolas, a natureza da minha vida de oração e o modo pelo qual mortifico a carne. São meras ilustrações usadas por Jesus para esclarecer os princípios gerais.
O princípio fundamental é guardar-se de fazer esmola – ou de exercer suas obras de justiça – diante dos homens. A vida cristã é delicada na sua natureza, dependendo sempre de um bom equilíbrio e estabilidade: não devemos ser pessoas que se exibam, nem pessoas excessivamente discretas na sociedade, devendo evitar ambos os extremos. O homem natural está sempre escolhendo entre agradar a si mesmo, ao seu semelhante ou a Deus, mas a nossa escolha já foi aqui debatida: as nossas boas obras devem ser vistas pelos homens, mas a glória é de Deus. O nosso relacionamento com Deus e a sua presença constante em nossa vida devem estar sempre em nossa mente.
Quanto a dar esmolas, Jesus mostra que existe uma maneira errada e uma certa de o fazermos. A maneira errada é anunciando abertamente o ato, e a resposta a isso por parte dos outros é a única recompensa que terão os que assim procedem. A maneira certa de dar esmolas é não anunciar de forma alguma aquilo que estiver fazendo, se possível nem a si mesmo. Neste caso, podemos esperar que o galardão venha de Deus.
Você não deve manter qualquer escrituração de suas “obras de justiça”: deixe Deus fazer isso em seu lugar. Ele tudo vê, tudo registra e o recompensará devidamente. O Senhor mantém em dia os seus livros de escrituração e, no grande dia da revelação dos segredos dos homens, quando o livro for aberto, todos os detalhes de tudo quanto tiver sido feito para glorificar a Deus será proclamado, quando as palavras forem ditas: "Muito bem, servo bom e fiel, entra no gozo do teu Senhor". Conservemos os olhos bem abertos quanto a esta cena final, e jamais nos olvidemos de que estamos vivendo continuamente na presença de Deus e sob seu olhar. Assim sendo, vivamos somente para agradar a ele.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

24. O QUE VOCÊ FAZ DE MAIS?


“Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês”
(Mateus 5. 48).

Amar, bendizer, fazer bem e orar por nossos cônjuges, amigos, parentes, irmãos da igreja, pessoas caras a nós, conforme já foi dito, são ações que praticamos ou deveríamos praticar. No entanto, Jesus quer que caminhemos além disso, praticando as mesmas ações com relação ao inimigo.
O evangelho de Jesus Cristo é um paradoxo. O caráter paradoxal do Evangelho foi inicialmente enunciado por aquele homem idoso, Simeão, quando estava com Jesus, ainda bebê, nos seus braços, quando disse que o menino "está destinado tanto para ruína como para levantamento de muitos em Israel". Ruína e levantamento são dois efeitos que o evangelho sempre proporciona.
O cristão é essencialmente uma espécie especial de pessoa. Ele jamais poderá ser explicado em termos naturais, pois é, na sua essência, um enigma. O cristão é uma pessoa diferente das outras porque, com relação ao bem, ele faz o que as outras pessoas também fazem, mas vai além das ações delas. No entanto, ele não só faz mais do que as outras pessoas, mas faz o que o melhor homem natural não pode fazer. Para tanto, espera-se dele que seja semelhante a Jesus Cristo.
Em que o cristão deve ser diferente do homem natural? Em primeiro lugar, na sua maneira de pensar: o homem moral e ético deseja viver dentro dos limites estabelecidos pela lei, mas não leva em conta o espírito, a essência mais profunda da lei, que deve ser o alvo do cristão. Em relação à moralidade, a atitude do homem natural é geralmente negativa, procurando não praticar coisas erradas; o cristão deve ser sempre positivo, com fome e sede de justiça positiva, ou seja, a justiça do próprio Deus. Com relação ao pecado, um homem natural sempre o vê como resultado de coisas que são feitas ou que são omitidas; o cristão não visa apenas aos atos, mas vai aos propósitos do coração. Quanto à atitude com relação a si mesmo, o homem natural até admite que não é inteiramente perfeito; o cristão reconhece que, se não fosse a morte de Cristo, ele nunca veria a Deus. Quanto ao relacionamento com Deus, o homem natural pode até pensar nele como alguém que deve ser obedecido e temido; o cristão ama a Deus, porque já chegou a conhecê-lo como Pai. Quanto à prática do bem na vida diária, o homem natural geralmente faz muitas coisas boas, mas gosta de manter um registro delas; o cristão é alguém que dá sem calcular o custo, sacrificialmente, de modo que a mão esquerda nunca sabe o que a direita está fazendo. Diante das tribulações, o homem natural não sabe o que é regozijar-se na tribulação, mas o cristão sim. Ele sabe de todas as coisas cooperam conjuntamente para o bem daqueles que amam a Deus. Com relação ao inimigo, o homem natural pode ser passivo, resolvendo não revidar nem retaliar com muita dificuldade; não é, porém, capaz de amar o inimigo e reagir a ele conforme Jesus ensinou, como deve o cristão fazer. Finalmente, diante da morte, o homem natural talvez morra com alguma dignidade; o cristão, porém, ao morrer, estará entrando em seu lar eterno, na presença de Deus. Em suma, o cristão deve ser uma pessoa especial por causa da sua perspectiva do pecado, pois ele já se viu como alguém totalmente destituído da glória de Deus, que não merece nada por aquilo que é, mas que recebeu de Deus a graça manifestada em Cristo Jesus, que o perdoou quando ele nem merecia o perdão. Que direito tem ele de não perdoar os seus inimigos? O cristão é alguém que se tornou o filho de Deus, que está no relacionamento interno com o Criador, o que faz dele uma pessoa especial. Ele nasceu de novo e Deus tornou-se seu Pai espiritual. Se a natureza divina lhe foi proporcionada por meio da dádiva do Espírito Santo, então você não pode ser como outra pessoa qualquer, terá que ser diferente.
O que estão vocês fazendo além do que se espera? "Se não faz diferença, que diferença faz?" Esta pergunta já foi formulada anteriormente, mas ela questiona exatamente o grande diferencial que a vida do cristão deve fazer em relação à de qualquer outro homem que não pertença ao Reino de Deus. Não basta viver uma vida boa, moral e reta, indo à igreja com regularidade, fazendo suas orações, mas é preciso ir além, sendo sal e luz em um mundo que apodrece a olhos vistos e jaz em trevas.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

23. AMOR AO INIMIGO

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos...” 
(Mateus 5. 43-44a).

Amar, bendizer, fazer bem, orar: quatro ações que normalmente praticamos, ou pelo menos deveríamos praticar, por nossos cônjuges, amigos, parentes, irmãos da igreja, pessoas caras a nós. No entanto, amar os inimigos, bendizer a quem nos maldiz, fazer bem aos que nos odeiam e orar por quem nos maltrata e persegue é algo que ultrapassa o chamado bom senso do homem natural. A sexta ilustração de Jesus para com cumprimento da lei é, sem dúvida, a mais difícil de ser praticada.
Escribas e fariseus diziam: "Amem o seu próximo e odeiem o seu inimigo", algo muito mais facilmente executável do que o que Jesus propôs. Nada há, porém, no Antigo Testamento que dê respaldo a essa interpretação. Para eles, o próximo era apenas outro israelita. Quem não fosse judeu, deveria ser odiado, atitude, aliás, comum a todos os povos a eles contemporâneos. Embora não encontrado explicitamente no Velho Testamento, tal ódio pode ter sido motivado pela ordem de Deus dada ao povo para exterminar os povos da terra na conquista de Canaã. Havia também a influência dos chamados Salmos imprecatórios, nos quais certas maldições são rogadas contra determinadas pessoas. Tais textos têm que ser entendidos como fazendo parte de um contexto definido.
Qual seria a única força que pode capacitar um homem a não revidar, a voltar a outra face, a caminhar a segunda milha, a dar tanto a capa quanto a túnica quando a última está sendo arrancada à força e a ajudar outras pessoas que estejam padecendo necessidade? A força vital necessária para tanto é o novo nascimento; é preciso que esse homem tenha morrido para si mesmo, para seus próprios interesses e suas próprias preocupações, tenha nascido de novo. Na interpretação de Cristo, o próximo inclui até os nossos inimigos. Há pessoas más, iniquas e injustas, mas Deus envia-lhes a chuva e ordena que o sol brilhe sobre elas, experimentando essas pessoas aquilo que se convencionou chamar de "graça comum". O amor de Deus não depende de qualquer coisa que exista no homem, mas se manifesta apesar do homem. Esse amor desinteressado deveria ser também nosso. Sendo um novo homem, uma nova criatura, uma nova criação, devemos ver todas as coisas de uma perspectiva diferente e reagir de modo diferente. No entanto, as nossas ações não devem ter por objetivo tentar transformar os inimigos em amigos por elas lhes favorecerem.
São três os exemplos claros deixados por Jesus de amor aos inimigos. O primeiro deles é bendizer aos que nos maldizem, ou seja, responder com palavras gentis as palavras amargas, duras e grosseiras a nós dirigidas. Fazer bem aos que nos odeiam já implica em desenvolvermos atos de benevolência em troca de atos maldosos. Orar pelos que nos maltratam e nos perseguem diz respeito a nos ajoelharmos e intercedermos junto a Deus, pedindo perdão por malfeitores que não sabem o que fazem. Segundo o pastor Martin Jones, é possível amar sem gostar, pois "Deus nos ordena que amemos a uma pessoa e a tratemos como se gostássemos dela", seja ela judia ou samaritana. Os seguidores de Cristo souberam pôr isso em prática. Paulo ensinou: "Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber..." Estevão orou de modo semelhante a Cristo quando estava sendo apedrejado.
Este ensinamento destina-se a cada um de nós e a Bíblia nos autoriza a dizer que podemos ter esta atitude se formos capacitados pelo Espírito Santo. Se todos os cristãos do mundo estivessem amando com essa pureza e intensidade, o reavivamento no meio cristão não demoraria muito a acontecer e poderia fazer muita diferença para o mundo inteiro.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

22. RETALIAÇÃO


“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso” (Mateus 5. 38-39a).

O dicionário define retaliar como revidar com dano igual ao dano recebido. Tanto o título dado a este texto quanto a lei do Velho Testamento são expressões fortes que precisam ser entendidas, no contexto de uma multidão de pessoas que, tendo saído do Egito, rumava para a Terra Prometida, onde se organizaria como povo. Nesta quinta ilustração dada por Jesus sobre a interpretação da lei mosaica, vamos manter mais uma vez aquela tríplice divisão da matéria, considerando o que o Velho Testamento afirma, o que os escribas e fariseus defendiam e o que Jesus define como válido diante do espírito da lei.
Êxodo, Levítico e Deuteronômio trazem a expressão "olho por olho, dente por dente". Por que foi outorgado este princípio? Como nos casos de adultério e divórcio, o principal intuito deste preceito mosaico era o de controlar os excessos; no caso em questão era controlar a ira, a violência e a vingança. O revide faz parte do nosso instinto natural de seres humanos, presente até mesmo nas crianças na mais tenra idade. Era necessário reduzir essa tendência, devolvendo certa ordem à sociedade dos homens. Por causa da dureza do coração humano, a lei previa castigo sempre equivalente à ofensa, sem jamais excedê-la.
O mais importante da questão é que o preceito foi dado para ser aplicado pelos juízes, não por indivíduos, fato que escribas e fariseus pareciam ignorar, dele fazendo uma questão de aplicação pessoal. Assim, consideravam como um dever pôr em prática o "olho por olho" e "dente por dente", numa perspectiva legalista, considerando somente o direito legal, atitude típica do egoísmo do ser humano natural.
Vejamos agora o que Jesus define como o espírito da lei. Em primeiro lugar, não resistir ao perverso é uma atitude que não pode ser aplicada ao pé da letra, pois forças policiais, magistrados, juízes e tribunais de justiça resistem ao perverso por força da própria função. Este ensino não se destina às nações ou ao mundo em geral, nem ao indivíduo que não é cristão. Jesus estava falando com aqueles que ele já havia descrito nas bem-aventuranças, pessoas humildes de espírito, perfeitamente conscientes de que são pecadoras e totalmente carentes aos olhos de Deus, que choram por seus pecados, são mansos, tem fome e sede de justiça, e assim por diante. O ensino desse preceito não pode ser observado por quem não possua essas qualidades. Além do mais, o presente preceito só pode ser aplicado ao cristão e em suas relações pessoais, não em suas relações como cidadão do seu país. O Senhor pede a cada um de nós que encare a si mesmo ao afirmar: "Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado”. Em outras palavras, Jesus dizia que, se somos crentes autênticos, precisamos morrer para o próprio eu.
É preciso que eu esteja seguro em minhas atitudes para comigo mesmo, com relação ao meu espírito de autodefesa diante da injustiça, bem como da retaliação, que tanto caracteriza o homem natural. Isto se aplica ao relacionamento com o próximo, assim como às exigências impostas pela comunidade ou pelo Estado. Finalmente, podemos entender as palavras de Jesus, acrescidas do adendo, com plena aplicação ao preceito estudado: "Se alguém quiser ser meu discípulo, então negue-se a si mesmo (juntamente a todos os direitos que julga ter sobre a sua própria pessoa), tome a sua cruz e siga-me". No mundo atual, no qual o ser humano tanto luta por seus direitos, esquecendo-se de que precisa também considerar os seus deveres, numa civilização que transtornou a ideia de valores de tal forma que não sabemos mais realmente quais são os direitos humanos pelos quais deveríamos lutar, Jesus continua aconselhando: “Não resistam ao perverso”.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

21. JURAMENTOS

“Mas eu lhes digo: Não jurem de forma alguma...” 
(Mateus 5. 34a)

Será que deveríamos considerar o juramento – uma simples questão de comunicação e de como falar com os outros – tão importante, quando existem problemas tão grandes no mundo moderno? Segundo o Novo Testamento, tudo o que o cristão faz e diz é muito importante, por ser ele quem é e pelo efeito que isso deve exercer sobre seus semelhantes.

O Antigo Testamento, em Êxodo, Deuteronômio e Levítico, afirma sobre juramento:“Não tomarás em vão o nome do Senhor, o teu Deus, pois o Senhor não deixará impune quem tomar o seu nome em vão”. “Temam o Senhor, o seu Deus, e só a ele prestem culto, e jurem somente pelo seu nome”. “Não jurem falsamente pelo meu nome, profanando assim o nome do seu Deus. Eu sou o Senhor”. Os antigos diziam e os doutores da Lei repetiam: "Não jurarás falso, mas cumprirás rigorosamente para com o Senhor os teus juramentos". Esta não é uma declaração que possa ser encontrada no Antigo Testamento, mas pode estar ligada a diferentes fontes da Torá. Tratava-se, portanto, de uma reformulação feita pelos doutores da lei.

Com relação aos juramentos, a própria lei mosaica procurava frear as inclinações humanas para a mentira. Um dos piores problemas enfrentados por Moisés foi a tendência do povo de mentirem uns aos outros, tornando a vida caótica, pois não se podia confiar nas palavras e declarações alheias. Por isso, a lei procurava restringir os juramentos às questões sérias e importantes. Os israelitas deveriam ser lembrados de que eram o povo de Deus e que seus diálogos e conversas eram feitos sobre o olhar do Criador; os juramentos estavam incluídos nessa seriedade. A atitude de escribas e fariseus era ditada inteiramente pelo legalismo. Eles haviam distorcido o significado dos juramentos e parafraseado trechos bíblicos sobre o assunto. Segundo entendiam, um judeu podia fazer toda a espécie de juramentos, contanto que não viesse a cometer perjúrio.

O legalismo continua vivo entre nós e por isso todas essas questões são altamente relevantes. A santidade e o mundanismo são ambos definidos pelo mundo de forma muito diferente do que se vê no ensino bíblico. Os fariseus eram desonestos ao fazerem distinções entre juramento e juramento, dizendo que alguns deles eram obrigatórios, mas outros não. Jesus mostra aos seguidores da letra da lei o seu verdadeiro espírito. Ele não proibiu o uso do juramento, mas orientou a não o fazer pelo céu, pela terra, por Jerusalém ou pela própria cabeça. Ele proíbe o juramento por qualquer criatura ou coisa criada, pois tudo pertence a Deus. Proibiu também o uso de qualquer juramento na conversação comum, quando as nossas afirmativas devem se limitar a sim ou não, ou seja, à verdade pura. Infelizmente, no campo das relações internacionais, dentro de cada governo e até mesmo no meio das mais sagradas associações da vida, impera a mentira. Os homens têm olvidado o ensino de Jesus Cristo no tocante aos votos e aos juramentos, bem como quanto à veracidade comum, à verdade e à honestidade naquilo que se diz. A mentira não tem tamanho maior ou menor.

Na segunda metade do século XX, época de atuação mais intensa de Martyn Lloyd-Jones, a relativização das coisas já se fazia presente no mundo, mas isto se acentuou até a nossa época, quando o mundo intelectual não admite a existência da verdade absoluta. Não nos conformemos com o presente século pós-moderno, conforme alertou Paulo, mas procuremos nos transformar pela renovação do nosso entendimento, pois é muito mais fácil sermos influenciados pelo mundo do que o influenciar. O nosso discurso deve estar afinado com a nossa postura de vida. Sejam, portanto, as nossas palavras sim, sim; não, não; ou seja, a verdade absoluta, para que não passemos a relativizar, dizendo aquilo que vem do maligno.