A identidade cristã nos dias atuais

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

25. OBRAS DE JUSTIÇA

"Tenham o cuidado de não praticar suas "obras de justiça" diante dos outros para serem vistos por eles. Se fizerem isto, vocês não terão nenhuma recompensa do Pai celestial" (Mateus 6.1).

Uma nova sessão se inicia em Mateus capítulo 6. Após as bem-aventuranças, a reação do cristão diante do mundo (e do mundo diante dele), bem como a relação entre o cristão e a lei de Deus, encontramos agora o quadro de um cristão que vive sua vida neste mundo na presença de Deus, em ativa submissão e completa dependência a ele. É o quadro dos filhos de Deus na relação com seu Pai Celeste, enquanto avançam na peregrinação chamada vida. Precisamos considerar dois aspectos principais neste capítulo: o primeiro, dos versos 1 a 18, cobre nossa vida religiosa, a nutrição da alma, nossa piedade, nossa adoração, enfim, tudo o que diz respeito ao nosso relacionamento com Deus; o segundo, do verso 19 até o fim do capítulo, refere-se ao cristão em sua relação para com a vida em geral, não apenas religiosa, mas como alguém sujeito a circunstâncias, lidando com as coisas do mundo. A vida do cristão neste mundo é entremeada de problemas; o capítulo em estudo sonda-nos e examina-nos, segurando um espelho diante nós, não nos permitindo escapar das verdades ali referidas. O autoexame, o conhecer-se a si mesmo, é a forma de conhecimento mais dolorosa que uma pessoa pode ter.
O primeiro versículo acima citado serve de introdução à mensagem contida no trecho até o verso 18. Nele Jesus anuncia o princípio geral que governa a vida religiosa do crente, que pode ser entendida em três segmentos: a maneira como dou esmolas, a natureza da minha vida de oração e o modo pelo qual mortifico a carne. São meras ilustrações usadas por Jesus para esclarecer os princípios gerais.
O princípio fundamental é guardar-se de fazer esmola – ou de exercer suas obras de justiça – diante dos homens. A vida cristã é delicada na sua natureza, dependendo sempre de um bom equilíbrio e estabilidade: não devemos ser pessoas que se exibam, nem pessoas excessivamente discretas na sociedade, devendo evitar ambos os extremos. O homem natural está sempre escolhendo entre agradar a si mesmo, ao seu semelhante ou a Deus, mas a nossa escolha já foi aqui debatida: as nossas boas obras devem ser vistas pelos homens, mas a glória é de Deus. O nosso relacionamento com Deus e a sua presença constante em nossa vida devem estar sempre em nossa mente.
Quanto a dar esmolas, Jesus mostra que existe uma maneira errada e uma certa de o fazermos. A maneira errada é anunciando abertamente o ato, e a resposta a isso por parte dos outros é a única recompensa que terão os que assim procedem. A maneira certa de dar esmolas é não anunciar de forma alguma aquilo que estiver fazendo, se possível nem a si mesmo. Neste caso, podemos esperar que o galardão venha de Deus.
Você não deve manter qualquer escrituração de suas “obras de justiça”: deixe Deus fazer isso em seu lugar. Ele tudo vê, tudo registra e o recompensará devidamente. O Senhor mantém em dia os seus livros de escrituração e, no grande dia da revelação dos segredos dos homens, quando o livro for aberto, todos os detalhes de tudo quanto tiver sido feito para glorificar a Deus será proclamado, quando as palavras forem ditas: "Muito bem, servo bom e fiel, entra no gozo do teu Senhor". Conservemos os olhos bem abertos quanto a esta cena final, e jamais nos olvidemos de que estamos vivendo continuamente na presença de Deus e sob seu olhar. Assim sendo, vivamos somente para agradar a ele.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

24. O QUE VOCÊ FAZ DE MAIS?


“Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês”
(Mateus 5. 48).

Amar, bendizer, fazer bem e orar por nossos cônjuges, amigos, parentes, irmãos da igreja, pessoas caras a nós, conforme já foi dito, são ações que praticamos ou deveríamos praticar. No entanto, Jesus quer que caminhemos além disso, praticando as mesmas ações com relação ao inimigo.
O evangelho de Jesus Cristo é um paradoxo. O caráter paradoxal do Evangelho foi inicialmente enunciado por aquele homem idoso, Simeão, quando estava com Jesus, ainda bebê, nos seus braços, quando disse que o menino "está destinado tanto para ruína como para levantamento de muitos em Israel". Ruína e levantamento são dois efeitos que o evangelho sempre proporciona.
O cristão é essencialmente uma espécie especial de pessoa. Ele jamais poderá ser explicado em termos naturais, pois é, na sua essência, um enigma. O cristão é uma pessoa diferente das outras porque, com relação ao bem, ele faz o que as outras pessoas também fazem, mas vai além das ações delas. No entanto, ele não só faz mais do que as outras pessoas, mas faz o que o melhor homem natural não pode fazer. Para tanto, espera-se dele que seja semelhante a Jesus Cristo.
Em que o cristão deve ser diferente do homem natural? Em primeiro lugar, na sua maneira de pensar: o homem moral e ético deseja viver dentro dos limites estabelecidos pela lei, mas não leva em conta o espírito, a essência mais profunda da lei, que deve ser o alvo do cristão. Em relação à moralidade, a atitude do homem natural é geralmente negativa, procurando não praticar coisas erradas; o cristão deve ser sempre positivo, com fome e sede de justiça positiva, ou seja, a justiça do próprio Deus. Com relação ao pecado, um homem natural sempre o vê como resultado de coisas que são feitas ou que são omitidas; o cristão não visa apenas aos atos, mas vai aos propósitos do coração. Quanto à atitude com relação a si mesmo, o homem natural até admite que não é inteiramente perfeito; o cristão reconhece que, se não fosse a morte de Cristo, ele nunca veria a Deus. Quanto ao relacionamento com Deus, o homem natural pode até pensar nele como alguém que deve ser obedecido e temido; o cristão ama a Deus, porque já chegou a conhecê-lo como Pai. Quanto à prática do bem na vida diária, o homem natural geralmente faz muitas coisas boas, mas gosta de manter um registro delas; o cristão é alguém que dá sem calcular o custo, sacrificialmente, de modo que a mão esquerda nunca sabe o que a direita está fazendo. Diante das tribulações, o homem natural não sabe o que é regozijar-se na tribulação, mas o cristão sim. Ele sabe de todas as coisas cooperam conjuntamente para o bem daqueles que amam a Deus. Com relação ao inimigo, o homem natural pode ser passivo, resolvendo não revidar nem retaliar com muita dificuldade; não é, porém, capaz de amar o inimigo e reagir a ele conforme Jesus ensinou, como deve o cristão fazer. Finalmente, diante da morte, o homem natural talvez morra com alguma dignidade; o cristão, porém, ao morrer, estará entrando em seu lar eterno, na presença de Deus. Em suma, o cristão deve ser uma pessoa especial por causa da sua perspectiva do pecado, pois ele já se viu como alguém totalmente destituído da glória de Deus, que não merece nada por aquilo que é, mas que recebeu de Deus a graça manifestada em Cristo Jesus, que o perdoou quando ele nem merecia o perdão. Que direito tem ele de não perdoar os seus inimigos? O cristão é alguém que se tornou o filho de Deus, que está no relacionamento interno com o Criador, o que faz dele uma pessoa especial. Ele nasceu de novo e Deus tornou-se seu Pai espiritual. Se a natureza divina lhe foi proporcionada por meio da dádiva do Espírito Santo, então você não pode ser como outra pessoa qualquer, terá que ser diferente.
O que estão vocês fazendo além do que se espera? "Se não faz diferença, que diferença faz?" Esta pergunta já foi formulada anteriormente, mas ela questiona exatamente o grande diferencial que a vida do cristão deve fazer em relação à de qualquer outro homem que não pertença ao Reino de Deus. Não basta viver uma vida boa, moral e reta, indo à igreja com regularidade, fazendo suas orações, mas é preciso ir além, sendo sal e luz em um mundo que apodrece a olhos vistos e jaz em trevas.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

23. AMOR AO INIMIGO

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos...” 
(Mateus 5. 43-44a).

Amar, bendizer, fazer bem, orar: quatro ações que normalmente praticamos, ou pelo menos deveríamos praticar, por nossos cônjuges, amigos, parentes, irmãos da igreja, pessoas caras a nós. No entanto, amar os inimigos, bendizer a quem nos maldiz, fazer bem aos que nos odeiam e orar por quem nos maltrata e persegue é algo que ultrapassa o chamado bom senso do homem natural. A sexta ilustração de Jesus para com cumprimento da lei é, sem dúvida, a mais difícil de ser praticada.
Escribas e fariseus diziam: "Amem o seu próximo e odeiem o seu inimigo", algo muito mais facilmente executável do que o que Jesus propôs. Nada há, porém, no Antigo Testamento que dê respaldo a essa interpretação. Para eles, o próximo era apenas outro israelita. Quem não fosse judeu, deveria ser odiado, atitude, aliás, comum a todos os povos a eles contemporâneos. Embora não encontrado explicitamente no Velho Testamento, tal ódio pode ter sido motivado pela ordem de Deus dada ao povo para exterminar os povos da terra na conquista de Canaã. Havia também a influência dos chamados Salmos imprecatórios, nos quais certas maldições são rogadas contra determinadas pessoas. Tais textos têm que ser entendidos como fazendo parte de um contexto definido.
Qual seria a única força que pode capacitar um homem a não revidar, a voltar a outra face, a caminhar a segunda milha, a dar tanto a capa quanto a túnica quando a última está sendo arrancada à força e a ajudar outras pessoas que estejam padecendo necessidade? A força vital necessária para tanto é o novo nascimento; é preciso que esse homem tenha morrido para si mesmo, para seus próprios interesses e suas próprias preocupações, tenha nascido de novo. Na interpretação de Cristo, o próximo inclui até os nossos inimigos. Há pessoas más, iniquas e injustas, mas Deus envia-lhes a chuva e ordena que o sol brilhe sobre elas, experimentando essas pessoas aquilo que se convencionou chamar de "graça comum". O amor de Deus não depende de qualquer coisa que exista no homem, mas se manifesta apesar do homem. Esse amor desinteressado deveria ser também nosso. Sendo um novo homem, uma nova criatura, uma nova criação, devemos ver todas as coisas de uma perspectiva diferente e reagir de modo diferente. No entanto, as nossas ações não devem ter por objetivo tentar transformar os inimigos em amigos por elas lhes favorecerem.
São três os exemplos claros deixados por Jesus de amor aos inimigos. O primeiro deles é bendizer aos que nos maldizem, ou seja, responder com palavras gentis as palavras amargas, duras e grosseiras a nós dirigidas. Fazer bem aos que nos odeiam já implica em desenvolvermos atos de benevolência em troca de atos maldosos. Orar pelos que nos maltratam e nos perseguem diz respeito a nos ajoelharmos e intercedermos junto a Deus, pedindo perdão por malfeitores que não sabem o que fazem. Segundo o pastor Martin Jones, é possível amar sem gostar, pois "Deus nos ordena que amemos a uma pessoa e a tratemos como se gostássemos dela", seja ela judia ou samaritana. Os seguidores de Cristo souberam pôr isso em prática. Paulo ensinou: "Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber..." Estevão orou de modo semelhante a Cristo quando estava sendo apedrejado.
Este ensinamento destina-se a cada um de nós e a Bíblia nos autoriza a dizer que podemos ter esta atitude se formos capacitados pelo Espírito Santo. Se todos os cristãos do mundo estivessem amando com essa pureza e intensidade, o reavivamento no meio cristão não demoraria muito a acontecer e poderia fazer muita diferença para o mundo inteiro.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

22. RETALIAÇÃO


“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso” (Mateus 5. 38-39a).

O dicionário define retaliar como revidar com dano igual ao dano recebido. Tanto o título dado a este texto quanto a lei do Velho Testamento são expressões fortes que precisam ser entendidas, no contexto de uma multidão de pessoas que, tendo saído do Egito, rumava para a Terra Prometida, onde se organizaria como povo. Nesta quinta ilustração dada por Jesus sobre a interpretação da lei mosaica, vamos manter mais uma vez aquela tríplice divisão da matéria, considerando o que o Velho Testamento afirma, o que os escribas e fariseus defendiam e o que Jesus define como válido diante do espírito da lei.
Êxodo, Levítico e Deuteronômio trazem a expressão "olho por olho, dente por dente". Por que foi outorgado este princípio? Como nos casos de adultério e divórcio, o principal intuito deste preceito mosaico era o de controlar os excessos; no caso em questão era controlar a ira, a violência e a vingança. O revide faz parte do nosso instinto natural de seres humanos, presente até mesmo nas crianças na mais tenra idade. Era necessário reduzir essa tendência, devolvendo certa ordem à sociedade dos homens. Por causa da dureza do coração humano, a lei previa castigo sempre equivalente à ofensa, sem jamais excedê-la.
O mais importante da questão é que o preceito foi dado para ser aplicado pelos juízes, não por indivíduos, fato que escribas e fariseus pareciam ignorar, dele fazendo uma questão de aplicação pessoal. Assim, consideravam como um dever pôr em prática o "olho por olho" e "dente por dente", numa perspectiva legalista, considerando somente o direito legal, atitude típica do egoísmo do ser humano natural.
Vejamos agora o que Jesus define como o espírito da lei. Em primeiro lugar, não resistir ao perverso é uma atitude que não pode ser aplicada ao pé da letra, pois forças policiais, magistrados, juízes e tribunais de justiça resistem ao perverso por força da própria função. Este ensino não se destina às nações ou ao mundo em geral, nem ao indivíduo que não é cristão. Jesus estava falando com aqueles que ele já havia descrito nas bem-aventuranças, pessoas humildes de espírito, perfeitamente conscientes de que são pecadoras e totalmente carentes aos olhos de Deus, que choram por seus pecados, são mansos, tem fome e sede de justiça, e assim por diante. O ensino desse preceito não pode ser observado por quem não possua essas qualidades. Além do mais, o presente preceito só pode ser aplicado ao cristão e em suas relações pessoais, não em suas relações como cidadão do seu país. O Senhor pede a cada um de nós que encare a si mesmo ao afirmar: "Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado”. Em outras palavras, Jesus dizia que, se somos crentes autênticos, precisamos morrer para o próprio eu.
É preciso que eu esteja seguro em minhas atitudes para comigo mesmo, com relação ao meu espírito de autodefesa diante da injustiça, bem como da retaliação, que tanto caracteriza o homem natural. Isto se aplica ao relacionamento com o próximo, assim como às exigências impostas pela comunidade ou pelo Estado. Finalmente, podemos entender as palavras de Jesus, acrescidas do adendo, com plena aplicação ao preceito estudado: "Se alguém quiser ser meu discípulo, então negue-se a si mesmo (juntamente a todos os direitos que julga ter sobre a sua própria pessoa), tome a sua cruz e siga-me". No mundo atual, no qual o ser humano tanto luta por seus direitos, esquecendo-se de que precisa também considerar os seus deveres, numa civilização que transtornou a ideia de valores de tal forma que não sabemos mais realmente quais são os direitos humanos pelos quais deveríamos lutar, Jesus continua aconselhando: “Não resistam ao perverso”.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

21. JURAMENTOS

“Mas eu lhes digo: Não jurem de forma alguma...” 
(Mateus 5. 34a)

Será que deveríamos considerar o juramento – uma simples questão de comunicação e de como falar com os outros – tão importante, quando existem problemas tão grandes no mundo moderno? Segundo o Novo Testamento, tudo o que o cristão faz e diz é muito importante, por ser ele quem é e pelo efeito que isso deve exercer sobre seus semelhantes.

O Antigo Testamento, em Êxodo, Deuteronômio e Levítico, afirma sobre juramento:“Não tomarás em vão o nome do Senhor, o teu Deus, pois o Senhor não deixará impune quem tomar o seu nome em vão”. “Temam o Senhor, o seu Deus, e só a ele prestem culto, e jurem somente pelo seu nome”. “Não jurem falsamente pelo meu nome, profanando assim o nome do seu Deus. Eu sou o Senhor”. Os antigos diziam e os doutores da Lei repetiam: "Não jurarás falso, mas cumprirás rigorosamente para com o Senhor os teus juramentos". Esta não é uma declaração que possa ser encontrada no Antigo Testamento, mas pode estar ligada a diferentes fontes da Torá. Tratava-se, portanto, de uma reformulação feita pelos doutores da lei.

Com relação aos juramentos, a própria lei mosaica procurava frear as inclinações humanas para a mentira. Um dos piores problemas enfrentados por Moisés foi a tendência do povo de mentirem uns aos outros, tornando a vida caótica, pois não se podia confiar nas palavras e declarações alheias. Por isso, a lei procurava restringir os juramentos às questões sérias e importantes. Os israelitas deveriam ser lembrados de que eram o povo de Deus e que seus diálogos e conversas eram feitos sobre o olhar do Criador; os juramentos estavam incluídos nessa seriedade. A atitude de escribas e fariseus era ditada inteiramente pelo legalismo. Eles haviam distorcido o significado dos juramentos e parafraseado trechos bíblicos sobre o assunto. Segundo entendiam, um judeu podia fazer toda a espécie de juramentos, contanto que não viesse a cometer perjúrio.

O legalismo continua vivo entre nós e por isso todas essas questões são altamente relevantes. A santidade e o mundanismo são ambos definidos pelo mundo de forma muito diferente do que se vê no ensino bíblico. Os fariseus eram desonestos ao fazerem distinções entre juramento e juramento, dizendo que alguns deles eram obrigatórios, mas outros não. Jesus mostra aos seguidores da letra da lei o seu verdadeiro espírito. Ele não proibiu o uso do juramento, mas orientou a não o fazer pelo céu, pela terra, por Jerusalém ou pela própria cabeça. Ele proíbe o juramento por qualquer criatura ou coisa criada, pois tudo pertence a Deus. Proibiu também o uso de qualquer juramento na conversação comum, quando as nossas afirmativas devem se limitar a sim ou não, ou seja, à verdade pura. Infelizmente, no campo das relações internacionais, dentro de cada governo e até mesmo no meio das mais sagradas associações da vida, impera a mentira. Os homens têm olvidado o ensino de Jesus Cristo no tocante aos votos e aos juramentos, bem como quanto à veracidade comum, à verdade e à honestidade naquilo que se diz. A mentira não tem tamanho maior ou menor.

Na segunda metade do século XX, época de atuação mais intensa de Martyn Lloyd-Jones, a relativização das coisas já se fazia presente no mundo, mas isto se acentuou até a nossa época, quando o mundo intelectual não admite a existência da verdade absoluta. Não nos conformemos com o presente século pós-moderno, conforme alertou Paulo, mas procuremos nos transformar pela renovação do nosso entendimento, pois é muito mais fácil sermos influenciados pelo mundo do que o influenciar. O nosso discurso deve estar afinado com a nossa postura de vida. Sejam, portanto, as nossas palavras sim, sim; não, não; ou seja, a verdade absoluta, para que não passemos a relativizar, dizendo aquilo que vem do maligno.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

20. O DIVÓRCIO


“Foi dito: ‘Aquele que se divorciar de sua mulher deverá dar-lhe certidão de divórcio’. Mas eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, faz que ela se torne adúltera...”
(Mateus 5. 31-32a)

Esta passagem faz parte das Escrituras assim como qualquer outra, mas muitos pregadores passam por cima deste assunto. Tudo aquilo de que precisamos saber nos é suprido no evangelho, onde encontramos um claro ensino e instrução acerca de cada aspecto de nossa vida. Há muitas dificuldades de interpretação, mas a maior parte é por causa da criação humana, que atribuiu à doutrina do matrimônio um aspecto sacramental católico.
Na lei mosaica, o adultério era punido com a pena de morte. Por isso, Jesus não inclui o divórcio no mesmo tema do adultério. No seu tempo, os homens tinham as mulheres em baixíssima conta e buscavam divorciar-se por qualquer razão indigna e frívola. No entanto, a verdadeira causa da separação era a concupiscência e a paixão, tratadas no texto anterior. Consideremos alguns princípios: o divórcio era limitado a determinadas causas, só permissível quando havia algum defeito natural, moral ou físico descoberto na mulher (na lei apresentada como impureza ou imundícia), eliminando-se razões frívolas, superficiais e injustas. Outro princípio afirmava que qualquer homem que se divorciasse de sua mulher teria de lhe dar carta de divórcio. Isso era uma proteção à mulher e mostrava a seriedade do matrimônio. Um terceiro princípio afirmava que o homem que viesse a dar à sua esposa carta de divórcio teria de fazê-lo de maneira permanente, não podendo desposá-la novamente. Pelos princípios expostos, notamos que a legislação mosaica impunha certa ordem a uma situação que se tornara caótica.
De tudo o que a lei determinava, parece que escribas e fariseus somente enfatizavam a necessidade de o marido dar carta de divórcio à esposa, muitas vezes por motivos banais. Jesus dá a sua interpretação para o problema do divórcio, qual seja a necessidade de haver causa real para isso. Mais tarde, durante seu ministério, o assunto divórcio volta a ser questionado por alguns fariseus, quando duas perguntas capciosas são feitas a Jesus: "É lícito ao marido repudiar a mulher por qualquer motivo?" "Por que mandou então Moisés dar carta de divórcio e repudiar?" Jesus tem então oportunidade de mostrar o real significado do matrimônio instituído por Deus desde o Éden, enfatizando as seguintes ideias: marido e mulher feitos uma só carne e a indissolubilidade do matrimônio e da vida a dois em comum. Tudo o mais havia sido permitido por Deus por causa da dureza do coração humano. Moisés nunca havia ordenado que alguém se divorciasse. Segundo a lei mosaica, só existe uma razão legítima para o divórcio, o que é chamado de "relações sexuais ilícitas", ou seja, infidelidade por parte de um dos cônjuges. Outro motivo, como o cônjuge incrédulo, ou mesmo a moderna “incompatibilidade de gênios", não deveria ser aventado, pois levaria ao adultério. Jesus, o grande legislador, deixa claro que houve uma legislação temporária para os filhos de Israel, devido às suas situações peculiares. Aos adúlteros impunha-se a pena de morte por apedrejamento. Jesus apenas anulou essa legislação temporária e legitimou o divórcio no caso de relações sexuais ilícitas.
Dada a seriedade e solenidade do assunto tratado, terminamos com o último parágrafo conforme definido por Martyn Lloyd Jones: "Você é testemunha das condições vigentes no mundo e na sociedade ao nosso redor. Surpreende-nos ainda que este mundo seja o que é, quando homens e mulheres brincam e se divertem com as coisas mais sérias e com a palavra de Deus, em uma questão tão importante quanto é o matrimônio? Que direito temos para esperar que as nações cumpram os seus acordos, uma vez que homens e mulheres, nem mesmo quanto às questões mais solenes e sagradas, como é o caso do matrimônio, observam os seus deveres? Devemos começar por nós mesmos, devemos começar pelo princípio: precisamos observar a legislação divina em nossas próprias vidas, como indivíduos. Então, e somente então, teremos o direito de confiar em povos e nações, esperando um tipo diferente de conduta e comportamento da parte do mundo em geral."

terça-feira, 5 de novembro de 2019

19. O ADULTÉRIO


“Qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela no seu coração” (Mateus 5.28).

Esta é a segunda ilustração que Jesus deixou acerca do ensino sobre a lei. Os dez mandamentos devem ser entendidos como um todo, um conjunto indissolúvel, já que o último se liga ao atual mandamento focalizado. O propósito inteiro da lei é mostrar a extrema pecaminosidade do pecado, ou seja, a nossa propensão para o mal, a origem de nossos atos: o homem interior. A tendência do homem natural é ver o pecado como uma consequência natural da sua evolução, pois, tendo evoluído do animal, segundo crê, ele está se desfazendo lentamente de sua natureza animalesca. Não é esta, no entanto, a verdadeira doutrina bíblica do pecado. O homem natural não entende por que Jesus morreu nem o verdadeiro significado da cruz. A encarnação do Filho de Deus não seria necessária se o ser humano não fosse pecador. "Não há justo, nem um sequer", afirmou Paulo.
A regeneração, o novo nascimento deve acontecer por causa do pecado humano e do sacrifício de Cristo. Para aqueles que não entendem corretamente a doutrina do pecado, a cruz e o novo nascimento não fazem sentido. Pouco se prega sobre o pecado hoje. A rejeição do Evangelho leva o homem ao inferno e o próprio Jesus alertou muitas vezes seus seguidores para a dificuldade que era o caminho estreito e a porta apertada que conduzem à presença de Deus. O verdadeiro evangelismo começa pela santidade de Deus, passa pela pecaminosidade do homem, pelas exigências da lei, sua punição e pelas consequências da escolha humana. O pecado não é exatamente o que eu faço, mas aquilo que me impulsiona a fazê-lo. É como uma enfermidade, que nasce dentro do homem e se manifesta em sintomas, que são as obras pecaminosas. Ele é sutil: acontece por procuração, através de terceiros, com o nosso interesse em literaturas, reportagens e filmes que o abordem, por exemplo; ele nos engana, levando-nos a pensar que somos filósofos ou sociólogos querendo entender coisas escabrosas. O pecado é um fator de perversão e ele torna nossos membros e instintos, criados por Deus de modo perfeito, como nossos inimigos. Mãos, olhos e outros componentes corporais nossos podem se tornar empecilhos para o nosso viver. O pecado a tudo distorce, ele perverte o ser humano, transformando o bem que nele existe em mal, além de destruí-lo, introduzindo a morte na vida do homem.
Há, porém, uma maior profundidade na fala do Salvador quando ele sugere eliminar algum membro do corpo para que o todo não seja lançado no inferno. O que Jesus queria dizer era que, por mais importante que alguma coisa seja para uma pessoa, se isso for servir de armadilha, fazendo-a tropeçar, seria preferível desfazer-se dessa tal coisa. Precisamos lembrar a importância da alma e do seu destino, eliminando qualquer adversário que se apresente no nosso caminho. Se minhas faculdades, propensões e habilidades me conduzem ao pecado, então deverei livrar-me delas. "Que aproveita o homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?"
Se reconhecêssemos o que os puritanos chamavam de "a praga dos nossos próprios corações", isso nos ajudaria a buscar a santidade.  O nosso coração deveria desconhecer a amargura, a inveja, o ciúme, o ódio e o despeito, mas caracterizar-se sempre pelo amor. Paulo afirmou que “se vivermos segundo a carne, caminhamos para a morte; mas, se pelo Espírito mortificarmos os feitos do corpo, certamente viveremos”. É preciso, portanto, que o corpo seja mantido em sujeição, reduzido à escravidão, mortificando nossos membros.
Um preço imenso teve de ser pago para que fôssemos libertados do pecado. Jesus suou gotas de sangue no Jardim do Getsêmani, suportou toda agonia e todo sofrimento e finalmente morreu na cruz pelo nosso pecado. Isaac Watts disse que esse amor "requer a minha alma, a minha vida, o meu tudo". A nossa santificação não pode ser buscada por nossas próprias forças, mas no poder do Espírito. Aquilo que o autor chama de poluição do pecado", o que faz com que, embora um homem não esteja praticando nenhum pecado num dado momento, ele continue sendo pecador, precisa ser por nós reconhecido. Sem pecado, poderemos ver a Deus face a face, estar de pé diante dele, sem qualquer culpa, sem mancha nem motivo de reprimenda.