A identidade cristã nos dias atuais

sábado, 10 de agosto de 2019

8. LIMPEZA DE CORAÇÃO

“Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus” (Mateus 5.8).


Faze meu coração tornar-se singelo; tira dele as duplicidades, as pregas e as dobras que lhe ofuscam a visão, e deixa-o puro, sincero, inteiramente isento de qualquer hipocrisia” (Martim Lloyd-Jones).
O lugar central no ensino de Jesus é ocupado pelo coração, órgão tido como o centro da personalidade humana, e não apenas de afetos e emoções. Nas Escrituras, a palavra “coração” envolve a emoção, o intelecto e a vontade. É o centro do ser humano e considera o homem em sua totalidade. A fé cristã, em última análise, não é somente uma questão de doutrinas, de intelecto, de entendimento, sendo antes uma condição do coração. Além disso, o coração é o manancial de todas as nossas dificuldades, pois, conforme diz a Bíblia, dele procedem maus desígnios, homicídios, prostituição, furtos, falso testemunho e blasfêmias. Nestes últimos tempos, um grande engano tem sido propalado: a ideia de que todas as dificuldades dos homens se devem ao seu meio ambiente, e que, para mudar o ser humano, é preciso modificar o lugar onde vive. O primeiro erro foi cometido em um meio ambiente perfeito, o Éden, e por isso recolocar o homem em um ambiente perfeito não soluciona os seus problemas. Todas as nossas dificuldades originam-se no coração humano, o qual, segundo Jeremias, é enganoso, além de ser desesperadamente corrupto e maligno. Desenvolver os poderes intelectuais do homem não soluciona seus problemas, a educação sozinha não pode fazer nada.
Como podemos ser limpos de coração? Só poderemos ver a Deus se estivermos limpos de coração. Nada poderia estar mais distanciado de Deus do que o homem natural, mas o evangelho é algo sobrenatural. Por isso a expressão "limpos de coração" se liga à pureza, não meramente na superfície, mas no próprio âmago do ser humano, na fonte de onde emanam todas as suas atividades. A palavra “limpo” tem o sentido de singelo, destituído de hipocrisia, ou ainda purificado e destituído de contaminação. Segundo o Apocalipse, coisa alguma que seja impura, ou imunda, ou que tenha qualquer sinal de contaminação jamais poderá entrar na Jerusalém celestial. Ser limpo de coração significa ser semelhante ao próprio Jesus Cristo. É ter um amor não dividido, considerando Deus nosso bem maior, um amor que só se preocupa em valorizar a Deus. Vivemos para glória do Criador e ter o coração limpo deve ser o supremo alvo de nossa existência. O único objetivo do Cristianismo é proporcionar-nos a visão de Deus e levar-nos a vê-lo. Somente aqueles que se parecem com Cristo poderão ver a Deus e estar em sua presença. Como acontece com as demais bem-aventuranças, essa promessa pode ser parcialmente cumprida ainda nesta existência terrena. Podemos ver a Deus na natureza, na história, ou através da nossa experiência pessoal, vendo, como afirma a epístola aos Hebreus sobre Moisés, como aquele que “vê o que é invisível”. É verdade que agora vemos como em um espelho, de modo obscuro, mas chegará o tempo em que o veremos face a face. 
Como podemos tornar os nossos corações puros, limpos? Certamente não é fugindo do mundo para um mosteiro. Por nossos próprios méritos, tão pouco, nada conseguiremos. Somente Deus pode fazer essa limpeza no coração do homem, conforme ele prometeu. Com a presença do seu Santo Espírito em nós, isto se torna possível. Estamos nas mãos do Senhor e o nosso aperfeiçoamento está em andamento, pois Deus está tratando conosco e purificando nosso coração. Este processo deverá prosseguir até a glorificação final. Cumpre-nos colaborar fazendo tudo o que estiver ao nosso alcance, fazendo morrer nossa natureza terrena. 
Você haverá de ver a Deus face a face! Deve ser seu supremo objetivo, seu desejo e sua grande ambição. Você e eu não dispomos de muito tempo para nos prepararmos devidamente. Mas você e eu, criatura sujeitas ao desgaste do tempo, haveremos de ver a Deus e estarmos na sua eterna e gloriosa presença para todo o sempre. 
Oremos com Davi, quando diz no Salmo 51, verso 10: "Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova dentro de mim um espírito inabalável." Amém.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

7. MISERICÓRDIA

“Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” (Mateus 5.7).

"Que tremendo teste para cada um de nós, quanto à toda a nossa posição e profissão de fé Cristã!" (Martyn Lloyd- Jones)
O dicionário define "misericórdia", do lado humano, como “dó, piedade, benevolência, perdão, bondade, compaixão suscitada pela miséria alheia”, ou ainda “sentimento de dor e solidariedade com relação a alguém que sofreu uma tragédia pessoal ou que caiu em desgraça”; do lado espiritual, ela é vista como “indulgência, graça, perdão, clemência”. Em sua origem latina, a palavra tem ligação com "miséria" (com o sentido de aflição) acrescentada à palavra latina “cor, cordis”, que deu origem a “coração” em português. O termo tem ampla aplicação em uma variedade de contextos éticos, religiosos, sociais e legais.
Nas bem-aventuranças, Jesus Cristo estava retratando e delineando o cristão e seu caráter. Se eu sentir aversão à sucessão de bem-aventuranças, isto significa que a minha posição é inteiramente contrária à do homem descrito nas páginas do Novo Testamento. As bem-aventuranças mostram verdades centrais e primárias quanto à posição do cristão: inicialmente, a ênfase é sobre o ser e não sobre o fazer – somos crentes em Cristo e o que fazemos é resultante desse fato; num segundo momento, constatamos que não controlamos o nosso cristianismo, mas devemos ser por ele controlados: é Cristo quem nos controla e não nós mesmos.
Paulo começa suas epístolas desejando "graça e paz da parte de Deus...", mas nas epístolas pastorais, ele inclui a misericórdia. A graça se refere à questão do pecado como um todo, mas a misericórdia focaliza as miseráveis consequências do pecado. A misericórdia denota um senso de compaixão e o desejo de aliviar os sofrimentos: é dó em parceria com ação. Nossa atitude para com as pessoas deve ser de profunda tristeza por todos aqueles impotentes escravos do pecado. O homem que se apercebe verdadeiramente de sua posição diante de Deus, de seu relacionamento com Deus, é um homem que necessariamente sente compaixão por seus semelhantes.
O homem misericordioso não só suporta as queixas, mas confere benefícios. Ele já ultrapassou a simples justiça e já chegou à busca daquilo que é bom, amável e generoso; por isso, ele procura realizar coisas amáveis para com seus semelhantes. O cristão não deve ser simplesmente misericordioso no sentido humano, demonstrando uma benevolência que deveria ser comum a toda humanidade, mas também deve denotar misericórdia num sentido superior e maior, uma misericórdia que unicamente o Espírito de Deus pode ensinar à alma do homem.
Quem são estas pessoas bem-aventuradas que alcançam misericórdia? Eram pessoas inicialmente humildes em espírito, que já haviam alcançado misericórdia suficiente para leva-las ao choro, atingindo também a graça da mansidão, tendo aprendido a ter fome e sede de justiça. A virtude peculiar atribuída aos bem-aventurados mostrava-os como pessoas possuidoras de benevolência para com os filhos da necessidade e as filhas da penúria. Essa misericórdia se estende ainda mais ao perdão pleno das ofensas pessoais contra elas. Sem esperar qualquer atitude positiva por parte das pessoas do mundo, um cristão genuíno sente misericórdia pelas almas de todos os homens e anela ansiosamente para que eles sejam levados ao conhecimento do Salvador, empreendendo ações para alcançá-los.

Examine-se, pois, o homem a si mesmo. Você sente compaixão por todos aqueles que são vítimas, que estão sendo iludidos pelo mundo, pela carne e pelo diabo? Você será realmente misericordioso e feliz se exercer a misericórdia para com todos os outros.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

6. FOME E SEDE DE JUSTIÇA

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos” (Mateus 5.6).

“Abençoados são vocês, que sentem fome de Deus. Ele é comida e bebida – é alimento incomparável” (Bíblia Mensagem).
Humildade em espírito, choro e mansidão são os degraus iniciais antes de se chegar à fome e sede de justiça. Nas três bem-aventuranças anteriores, voltamos a atenção para a solução dos problemas a fim de sermos libertados do “eu”. Na bem-aventurança atual, embora infelizes quanto ao nosso estado espiritual, ansiamos por uma nova ordem e qualidade de vida até agora não experimentada na convivência com Deus e com os semelhantes.
Qual é a causa da dor, da infelicidade e do senso de miséria dos homens? Pascal e Dostoieviski referiram-se em suas obras ao “vazio do tamanho de Deus existente no ser humano”. Para preencher esse vazio, o mundo (e infelizmente também alguns cristãos) buscam alguma bênção ou a decantada felicidade, colocando bênção e felicidade antes da Justiça. Felicidade e bênção são coisas que Deus acrescenta àqueles que buscam a sua justiça.
A palavra “justiça” neste contexto representa a busca por aquilo que é eterno e celestial, deixando de lado as coisas comuns e perecíveis. Em primeiro lugar, o homem deve se libertar da busca pelas coisas terrenas antes que possa sentir o fervor pelas coisas celestiais. A busca pela justiça não se trata, porém, de uma espécie de retidão geral ou de moralidade entre as nações. O conceito do Evangelho sobre justiça é muito mais profundo do que isso.
Assim que o Espírito de Deus lhe dá vida e o faz realmente bem-aventurado, o homem começa a almejar a justiça diante de Deus. Ele sabe que é um pecador e está condenado no tribunal do Altíssimo. Mas ele quer ser justo, deseja ser livre do pecado e estar em paz com Deus. Ter fome e sede de justiça é desejar se livrar do próprio eu, buscando a santificação ao assemelhar-se a Cristo. Ter fome e sede de justiça significa ter consciência das próprias necessidades.
Ao tomar contato com o evangelho, as pessoas tendem a levantar duas objeções quanto à salvação pela graça; ou elas dizem “isto é facilitar demais as coisas”, ou afirmam, após tomarem conhecimento da necessidade de santificação, “isto torna a salvação uma empreitada impossível para nós”. Para as pessoas, ser justo significa apenas ser decente e moral até um determinado nível. Para o cristão, ser justo significa ser parecido com o Senhor Jesus Cristo. A satisfação imediata após a fome e sede de justiça vem através do perdão dos nossos pecados, pela presença do Espírito em nós ajudando a nossa santificação e pela perfeição absoluta na glorificação. Estamos vivendo nesta direção?
Temos apetite espiritual ao sentirmos fome e sede de justiça quando percebemos o quanto é falsa a nossa própria justiça, temos consciência da necessidade de um Salvador, evitamos nos expor ao pecado (mesmo  evitando praticar coisas que diminuam nosso apetite espiritual) embora não sejam totalmente más, buscamos a justiça diariamente ou nos dedicamos à leitura da Bíblia e à oração e meditação. Apesar de tudo isso, porém, vamos estar longe do objetivo e necessitar da graça de Deus, pois o que nos leva a ter fome e sede de justiça é o caráter hediondo do pecado. Os que têm fome e sede de justiça serão fartos com toda a plenitude de Deus.
Como posso ser visto como justo diante de Deus? Jesus Cristo foi tornado por Deus para nós em “justificação, santificação e redenção”. O cristão, depois de regenerado e justificado, ainda anseia pela justiça noutro sentido: quer ser santificado. Se você crê em Cristo, se foi perdoado dos seus pecados, você não está mais sujeito à lei, mas debaixo da graça, Deus não mais contempla o seu pecado, mas olha para a justiça do sangue de Cristo em você. Isto vai prosseguir enquanto você busca a estatura de varão perfeito neste mundo, até que é promessa tenha um cumprimento final e absoluto na eternidade, quando todos os salvos em Cristo estarão na presença de Deus sem culpa, sem defeito, sem mancha, sem ruga. Esta é a gloriosa promessa para todos os que têm fome e sede de justiça, pois finalmente serão fartos.
Se cada homem e mulher neste mundo soubesse o que significa ter fome e sede de justiça, não mais explodiriam conflitos armados e o mundo teria paz..

terça-feira, 9 de julho de 2019

5. MANSIDÃO

“Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra” (Mateus 5.5).

“Mas os mansos herdarão a terra, e se deleitarão com abundância de paz” (Salmos 37:11).
Quando o assunto é conquista e predomínio, o mundo pensa em termos de força, poderio, habilidades, autoconfiança e agressividade. O mundo não somente é diferente do cristão, mas também nem ao menos é capaz de entendê-lo, pois, para o mundo, o crente é um enigma. No Reino de Deus tudo é diferente. O cristão difere das pessoas deste mundo quanto à qualidade: ele é um homem novo, uma nova criação.
Os judeus mantinham determinadas ideias materialistas e militaristas sobre o Reino de Deus, pois pensavam em termos de conquista e de lutas por bens materiais. O Messias trouxe um Reino com bem-aventuranças progressivas e que se vão tornando progressivamente mais complexas. Mansidão não é qualidade natural; não é indolência, não é fraqueza nem gentileza.
O que é mansidão? Quem são os mansos? Mansos são aqueles que têm sido feitos pobres de espírito, que foram conduzidos ao choro por causa do pecado diante de Deus e foram por ele consolados. O homem de espírito manso é o menor diante de Deus e caminha humildemente entre os homens. O cristão que é realmente superior aos demais com quem convive é precisamente o homem que se rebaixa ao nível dos menos importantes, visando ao bem geral de todos. Ele imita seu Senhor, o qual, ainda que fosse igual a Deus, “esvaziou- se a si mesmo, tomando forma de servo”. O homem manso é agradecido, feliz e está contente, e o contentamento é o que faz sua vida desfrutável. O homem de espírito manso se alegra ao saber que outras pessoas são felizes, e a felicidade delas é a sua felicidade.
A mansidão consiste em um autêntico ponto de vista que o indivíduo forma de si mesmo, que se reflete em uma atitude e conduta em relação ao próximo. O indivíduo manso não se orgulha de si mesmo, não se vangloria do que é, faz ou tem. Ele não vive cuidando de si próprio ou dos seus próprios interesses, nem se preocupa consigo mesmo ou com o que os outros digam a seu respeito. O homem que é realmente manso não tem pena de si mesmo e nunca se lamenta por si próprio. É paciente e longânimo, especialmente quando sofre injustamente. Para sermos mansos, é mister que deixemos tudo – a nós mesmos, nossos direitos, nossas causas, nosso futuro todo - nas mãos de Deus, principalmente quando sentirmos que estamos sofrendo injustamente. O homem manso não tem espírito de retaliação; justiça própria nunca é mansidão. O homem orgulhoso de si mesmo com toda segurança é de coração duro em seu tratamento com os outros. Deve haver pobreza de espírito e lamentação de coração antes que venha a real mansidão. Trata-se de algo inteiramente impossível para um homem natural, uma qualidade de caráter que é fruto direto do Espírito Santo. O homem manso é alguém que acredita em defender com tal empenho a verdade, que se dispõe até a morrer por ela, se for necessário. Os mártires foram pessoas mansas, mas jamais foram débeis.
Afirmou Spurgeon: “Coloquem estas cinco qualidades juntas, e terão assim um homem verdadeiramente manso: humilde, delicado, paciente, perdoador e contente; é exatamente o oposto do homem que é orgulhoso, duro, irado, vingativo e ambicioso”.
A promessa da bem-aventurança é de que os mansosherdarão a terra”: como é que isso vai acontecer?  No Reino de Deus, não é o forte que vence, mas sim o fraco. Quando todas as forças terrenas forem vencidas, o Reino de Cristo permanecerá. Nada é mais poderoso que a mansidão, e o manso é aquele que herdará a terra neste sentido. Com um suave temperamento, um espírito tranquilo e graça para que se mantenham assim, os mansos receberão a terra por herança. A promessa de herdar a terra também pode se referir à Canaã Celestial. Depois que essa terra for purificada pelo fogo, depois que Deus tiver queimado as obras dos homens e qualquer traço de humanidade corrupta tiver sido destruído, então esta terra será preparada novamente, e os anjos descerão com um louvor renovado, e a Nova Jerusalém virá do céu de Deus em toda sua glória.
Se formos mansos, se somos cristãos autênticos, todas as coisas já pertencem a nós e, neste caso, já somos herdeiros da terra.

terça-feira, 2 de julho de 2019

4. CHORO

“Bem-aventurados os que choram, pois eles serão consolados” 
(Mateus 5.4).

“Que grande bênção é a aflição, pois concede espaço para que o Senhor administre o consolo! Nossas aflições são abençoadas, pois são nossos pontos de contato com o Consolador divino” (Spurgeon).
Da mesma maneira que a humildade de espírito não tem qualquer ligação com questões financeiras, também o chorar como qualidade espiritual nada tem a ver com o choro em nossa vida natural neste mundo. O cristão como alguém que chora não é uma atitude muito evidente na igreja atual, tal qual acontecia em épocas passadas. Todas as bem-aventuranças referem-se a condição e atitude espirituais. Na presente bem-aventurança, são elogiados aqueles que choram em seu espírito, pois esses, esclarece o Senhor, são felizes e serão consolados.
No caminhar cristão, o negativo sempre precede o positivo: precisamos ser humildes de espírito, esvaziando-nos, antes de começarmos a ser cheios do Espírito; da mesma forma, a convicção do pecado deve anteceder a conversão, pois a real tristeza pelo pecado manifesta-se antes que haja alegria real pela salvação. Aqueles que se convertem tornam-se verdadeiramente felizes, mas, antes de tudo, já se lamentaram chorando pelo pecado.
Como cristãos, estamos sendo moldados segundo a imagem e o padrão do próprio Senhor Jesus, devendo buscar nos assemelharmos a ele. Uma das coisas que observamos é que não há qualquer registro de algum riso do Salvador. Ele teve fome e sede, ficou irado, chorou, mas não há versículo algum que reflita alguma gargalhada que tenha soltado. Isaías profetizou que ele seria "homem de dores, sabendo o que é padecer". O choro espiritual é algo que necessariamente resulta do fato de alguém ser humilde de espírito. Quando contemplo Deus e a sua santidade e comparo com a vida que ele espera que eu viva, deparo comigo mesmo, com meu total desamparo e desesperança. Isto me entristece. Se, ao final de um dia, você fizer perguntas como "o que fiz, o que disse, o que pensei, como me conduzi diante dos meus semelhantes?" você se sentirá profundamente afetado pelo senso de tristeza e pesar por ter sido capaz de ações ou pensamentos que o levam a lamentar-se.
Paradoxalmente, no entanto, muitos crentes parecem pensar que uma jovialidade e vivacidade fáceis deveriam retratar o cristão. O desenvolvimento de uma doutrina defeituosa do pecado e de uma ideia superficial da alegria operando conjuntamente produziram em nós um tipo de crente superficial e uma forma de vida cristã extremamente inadequada. A “tendência ao espetáculo” pós-moderna parece incentivar essa atitude.
O cristão verdadeiro chora por causa dos próprios pecados e também dos alheios, preocupando-se com o estado da sociedade e do mundo. Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro, por causa do pecado que introduziu na vida a própria morte. Cristo chorou também diante da cidade de Jerusalém, pela rebeldia que a levaria à sua destruição. O lema do mundo é "descansa, come, bebe e regala-te". O choro espiritual é uma atitude diametralmente oposta a isso.
E o consolo, de onde vem? O homem que chora é feliz em que sentido? O choro por causa do pecado leva ao arrependimento e à salvação em Cristo. A nossa mais profunda tristeza leva-nos ao regozijo, mas sem tristeza não pode haver regozijo. O consolo, porém, não é só imediato, porque "os sofrimentos do tempo presente não são para comparar com a glória por vir a ser revelada em nós.
Afirma Lloyd-Jones em seu sermão que, "cinquenta anos atrás, o ser humano estava melhorando e se aprimorando rapidamente, mas agora ninguém pode mais alegar estar havendo tal progresso, nem depender da educação, nem das Nações Unidas, pois todas essas coisas foram experimentadas e fracassaram". E nós, mais de 50 anos depois daquilo que ele disse, como podemos aplicar essa mensagem hoje? Para o mundo, não há mais qualquer consolo, porém, para o crente, que se lamenta em face do pecado e do estado do mundo, existe aquilo que Paulo chama de "bendita esperança". Por essa razão, mesmo neste mundo, embora gemendo, o cristão é feliz, por causa da esperança de salvação que o motiva.
O cristão que chora é um homem triste, mas não melancólico ou taciturno; é um homem sóbrio, mas não sombrio; é um homem grave, mas nunca frio ou distante; mostra-se constantemente sério, sem fingir seriedade; sua aparência sempre é a de um homem compenetrado e bem equilibrado. Como Paulo, ele geme no íntimo, mas sente-se feliz por ter experimentado Cristo e antecipado a glória futura. Uma profunda doutrina do pecado combinada com uma elevada doutrina da alegria cristã produz esse homem abençoado e feliz, o qual chora, é verdade, mas que, paralelamente a isso, é consolado. 

quinta-feira, 27 de junho de 2019

3. HUMILDADE EM ESPÍRITO

“Bem-aventurados os humildes em espírito, pois deles é o Reino dos céus.” (Mateus 5.3)

“Quão pobres são aqueles que se consideram ricos! Quão ricos são aqueles que se veem pobres!” (Thomas Watson)
Toda escada começa pelo primeiro degrau e ele deve ser acessível a todos os que queiram subir. A escada das bem-aventuranças começa pelos “pobres em espírito”. Há uma sequência bem definida nas bem-aventuranças e a primeira delas abre a compreensão de tudo quanto vem a seguir. Ser pobre em espírito é característica fundamental do cidadão do Reino de Deus. Ela aponta para um esvaziamento, enquanto as demais bem-aventuranças apontam para uma plenitude. Se não for pobre em espírito, lágrimas, mansidão, fome e sede de justiça, misericórdia, pureza de coração, espírito de pacificador e perseguição por causa da justiça serão estágios muito difíceis de serem alcançados. O primeiro ponto de contato entre minha alma e Deus não é o que eu tenho, mas o que não tenho.
Pobres em espírito são aqueles que não exibem o orgulhoso espírito do mundo, são pobres somente por não dependerem das coisas materiais. A pobreza em Espírito aludida por Cristo contrasta diretamente com a impressão de confiança própria e de segurança em si mesmo mostrada pelo indivíduo no mundo, quando busca um emprego, por exemplo. Segundo Lloyd Douglas, referindo-se à letra de um hino de John Wesley, alguém teria levantado a seguinte questão: "Qual é o homem que, desejando uma colocação, um emprego, sonharia jamais em dirigir-se ao patrão a fim de dizer-lhe: 'Vil e pecaminoso eu sou?' Ridículo!" Não estamos aqui considerando um homem face a face com outro, mas homens frente a frente com Deus. Muitos fazem confusão ao compararem autoconfiança, auto segurança e auto expressão de um lado e a verdadeira personalidade de uma pessoa de outro lado. Espiritualmente, estamos dentro de um Reino diferente de tudo quanto pertence a este presente mundo mau. O pobre em espírito não é popular nem mesmo dentro da igreja, conforme acontecia antigamente.
Vejamos inicialmente os aspectos negativos da bem-aventurança: O que não é ser pobre em espírito? Em primeiro lugar, não quer dizer que o cristão deveria ser tímido ou retraído, fraco ou acovardado; lembre-se de que os humildes de espírito não nasceram assim. Em segundo lugar, o homem que realmente é pobre em espírito não precisa preocupar-se tanto com sua aparência pessoal e com a impressão que esteja causando aos outros; pelo contrário, ele sempre dará a impressão certa. Em terceiro lugar, ser pobre em espírito não exige a supressão da sua personalidade, pois trata-se de uma transformação que se verifica no âmbito espiritual. Finalmente, a humildade do Espírito também não reside na pouca erudição, no pouco conhecimento.
Vejamos agora os aspectos positivos: Isaías 57.15 afirma: “Pois assim diz o Alto e Sublime, que vive para sempre, e cujo nome é santo; habito num lugar alto e santo, mas habito também com o contrito e humilde em espírito, para dar novo ânimo ao espírito do humilde e novo alento ao coração do contrito”. O próprio Isaías, tal como Gideão, Moisés e Davi tiveram atitudes dessa natureza. Pedro jamais deixou sua própria personalidade, mas, ao mesmo tempo, ele se tornou um homem pobre em espírito. Paulo, um homem de tremendas capacidades, apareceu após a conversão em fraqueza, temor e grande tremor. Jesus, ao encarnar, é o exemplo supremo da pobreza em espírito. Resumindo, essa qualidade representa uma completa ausência de orgulho pessoal, de segurança própria e de auto dependência diante de Deus. É a consciência de que nada somos diante dele e, portanto, nada podemos fazer por nós mesmos. Pobre em espírito não depende de seus dotes naturais que vêm do berço, não depende do dinheiro ou de riquezas, não depende da educação recebida, de dotes naturais de personalidade, de inteligência ou de habilidades gerais ou particulares. Não depende da própria moralidade, conduta ou bom comportamento. Sermos pobres em espírito é sentirmos que nada somos, que nada temos, e olharmos para Deus em total submissão a ele, dependendo inteiramente de sua misericórdia e de sua graça.
Na parábola, a pobreza de espírito do publicano era melhor que a plenitude da excelência externa do fariseu. A declaração de nosso Senhor “em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus” é uma regra rígida, que exclui a todos, exceto aos pobres em espírito.
Afirma Spurgeon: “Pobres de espírito: as palavras soam como se descrevessem os donos de nada, mas descrevem os herdeiros de todas as coisas. Feliz pobreza!”

quarta-feira, 19 de junho de 2019

2. BEM-AVENTURANÇAS

“Bem-aventurados os pobres em espírito... os que choram... os mansos... os que têm fome e sede de justiça... os misericordiosos... os puros de coração... os pacificadores... os perseguidos por causa da justiça...” (Mateus 5)

“As montanhas sempre foram associadas com épocas distintas da história do povo de Deus... Era conveniente, portanto, que o início do ministério do Redentor estivesse vinculado a um monte tal como ‘a Colina das Bem-aventuranças’” (Spurgeon).
O grande alvo que a humanidade busca parece ser a felicidade, como se ela fosse o maior de seus objetivos. A frase “Felicidade é...” aparece em muitos lugares com vários complementos, mas a vasta maioria, infelizmente, busca-a de tal modo que ela só produz o infortúnio, dado o caráter totalmente enganador do pecado. O indivíduo perfeitamente capaz de obedecer a todas as determinações do sermão do Monte é aquele com a mente esclarecida quanto ao caráter essencial de um crente. Ele é o homem que deveria ser congratulado e imitado, pois somente ele é o homem verdadeiramente bem-aventurado, um homem feliz.
Todos os cristãos devem ser assim, sejam eles pastores ou leigos. Cada um de nós deveria manifestar conjuntamente todas essas qualidades ao mesmo tempo. Não são tendências naturais humanas, pois pessoa alguma apresenta tais características espirituais por nascimento ou natureza. As bem-aventuranças propõem a diferença essencial e total entre o crente e o incrédulo. Tal distinção tem sido nublada, pois a igreja se tem mundanizado. A linha divisória não é mais tão distinta como costumava acontecer no passado. Há uma tendência de tornar a igreja mais atrativa para quem está do lado de fora e a ideia é que nós devemos nos tornar o mais parecido possível com quem está na realidade do mundo. Quando a igreja é absolutamente diferente do mundo, ela inevitavelmente atrai as pessoas: esta é a glória do Evangelho. Não deveríamos ambicionar ser o mais parecido possível com todo mundo; pelo contrário, deveríamos ambicionar ser o mais diferentes possível daqueles que não são crentes, buscando nos assemelhamos a Cristo.
O cristão e o incrédulo pertencem a dois reinos inteiramente diversos: o cristão vive ao mesmo tempo em dois mundos diferentes, com cidadania terrena e celestial. Ele está no mundo, mas não pertence a ele. A primeira e a última das bem-aventuranças dizendo “... porque deles é o reino dos céus”. Mateus escreveu aos judeus que esperavam um messias temporal, mas Jesus veio trazer um Reino Espiritual.
Já fazemos parte deste reino? Estamos sendo governados por Cristo? Ele já é o nosso Rei e Senhor? Estamos manifestando as qualidades recomendadas pelo Sermão do Monte em nossas vidas? Estamos sendo verdadeiramente abençoados? É nossa grande ambição agir assim? Percebemos que isso é o que se espera de nós? Estamos sendo verdadeiramente abençoados? Somos felizes? Já fomos fartos? Obtivemos a paz?
A partir de um monte, Deus proclamou a Lei, e é sobre um monte que Jesus a explica. O Cristo de Deus é o Pregador do Sermão do Monte. Sendo o Salvador, ele era o mais capacitado para responder à pergunta “quem são os salvos?” ou ainda “quais são as marcas e evidências de uma obra de graça na alma?” A última palavra do Antigo Testamento é “maldição”, e é muito sugestivo que o primeiro sermão do ministério de Nosso Senhor comece com a palavra “bem-aventurados”. As bem-aventuranças estão, em todos os casos, no tempo presente, representando uma felicidade que deve ser gozada e desfrutada a partir de agora, nesta vida e neste mundo, embora pareça difícil.
“Quando percebeu que seu ministério começava a atrair multidões imensas, Jesus subiu a uma montanha. Solicitou aos que estavam aprendendo com ele que o acompanhassem. Quando chegaram a um lugar bem tranquilo, ele se assentou e começou a ensinar aos seus companheiros de caminhada...” Esta é a forma como “A Mensagem", Bíblia em linguagem contemporânea coordenada por Eugene Peterson, traduz  os dois primeiros versos do quinto capítulo de Mateus. Hoje Jesus também solicita a todos nós, cristãos do século XXI que com ele estamos aprendendo, que o acompanhemos e que ouçamos os seus ensinos, contidos no Sermão do Monte, principiando com as bem-aventuranças.